Olá, chamo-me Funcionária Púbica, mas podem tratar-me por FP que, assim como assim, é como me tratam a maior parte das vezes. Entre dentes e em discussões apaixonadas e acessas da opinião pública.
Tenho entre 20 e 120 anos e quando morrer já estou quase na idade da reforma. Penso muito nesse dia. Não na reforma, mas no dia em que vou morrer, que há-de vir antes.
Sou FP há tanto tempo que já nem me lembro há quantos estou neste serviço, mas dizem que é a profissão mais velha do mundo por isso já cá devo andar há muito. Só é pena que não seja remunerada em função dos anos da mais velha profissão, apesar de, não raras vezes, os serviços em troca serem idênticos.
Sou uma das beneficiadas e beneficiárias da ADSE mas daquela ADSE que se paga. Dizem que também há uma que não se paga (e só serve para beneficiar todos os FP's do mundo que vivem à conta dos contribuintes) mas essa eu não conheço.
Não tenho direito a progredir na carreira - porque quem é FP sê-lo-á toda a vida no mesmo sítio de onde partiu - e não recebo horas extraordinárias, nem aumentos, compensações, favores ou luvinhas. Ser FP é servir o outro sem olhar a estas minudências. É fazer sacrifícios por um bem maior. Também há quem lhe chame obrigação.
O meu vencimento é pago por todos os contribuintes e também é pago por mim mesma, que também sou contribuinte. Sinto-me completamente lisonjeada por poder pagar o meu próprio ordenado, é um privilégio dado a poucos.
Gosto muito do meu local de trabalho, somos todos uma família. Temos o pai que bate na mãe, a mãe que grita com a avó, o filho que viola meninas, a filha que que brinca com rapazes, o tio que bebe, a enteada que empalita o marido, a sogra com problemas de memória, os homens com crises de meia-idade e milhares de parentes afastados que não sabemos quem são, nem onde estão, mas que sabemos existir. Temos de tudo como numa família normal e desunida que somos.
O nosso patrão é escolhido por uma nação inteira que, na hora de o escolher, nunca se lembra que uma das funções para o qual o está a contratar é para ser patrão de um terço da nação. E depois reclamam que o homem não é bom, que não sabe fazer a contabilidade doméstica, que só escolhe os piores para ocupar os melhores cargos, e por aí adiante. Pois claro que o homem não sabe. É o mesmo que ir a uma entrevista de emprego para padeiro mas elegerem-no para trolha. Vendo bem, não é bem a mesma coisa. Mas, no final do dia, cá estou eu, FP de coração, a receber ordens de um patrão que não conheço e não escolhi, a servir um ror de gente que o escolheu sem pensar em mim.
Sou Funcionária Púbica porque não arranjei mais nada.
Sou humorista nas horas vagas porque não tive alternativa.
Sempre pronta para vos servir,
A Funcionária Púbica